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domingo, 24 de março de 2013

Poema sem título (por Rômulo Costa)


"Há, no interior de minha jovem carne fria,
um nobre ancião que devora o fruto quente da vida.
Que de mim conhece e surrupia
as paixões, o sonho, as ilusões e o bálsamo da ferida.

Ele, o velho, me guia sem guiar
dos recantos trevosos da Terra
aos encantos sublimes do ar,
desde a epigênese do canto das harpias
à geração monofônica do celular

Nele, senhores, repousa a razão
que sob nossas cabeças rasteja de desolação, descontentamento...

Ele, senhores, é o Sentimento!"

Rômulo Costa, 17 de junho de 2012.




quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O juízo

“O primeiro anjo tocou. Saraiva e fogo, misturados com sangue, foram lançados à terra; e queimou-se uma terça parte da terra, uma terça parte das árvores e toda erva verde.”
Apocalipse 8:7

Eu ouvi reclamações de mil mendigos
Senti seu cheiro de vários anos sem banho ao entrar no ônibus,
Eu ouvi o som da trombeta do juízo final
E não senti medo, pois sabia que estava bem
E pedi proteção ao demônio
E compus poemas de adeus
Na alvorada dominical
Quando deus percebeu que eu estava vivo
E gritou censuras à minha insanidade
Quem é são?!
- São Pedro, São Paulo
São Petersburgo -
Ainda agora ouço o som das trombetas
Para o fim e a Eternidade, são apenas uns poucos
Que verão o alvorecer de segunda

Renan Almeida, setembro de 2012.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Fim de tarde

O sol se põe no fim de tarde melancólico,
O céu impressiona a todos com um espetáculo de cores;
Tons alaranjados, mistos de azul e amarelo,
Doces nuvens em formatos diversos.

Na Praça do Relógio,
Pombos aglomeram-se em busca de uma migalha
E o badalo das seis avisa que é hora de se recolher.
Porém, o sol parece recusar-se a ir embora;
Como se quisesse presentear-nos com um último e gracioso minuto;
Logo se tornam desertos de concreto as ruas movimentadas de outrora
E a noite cai sobre os postes que se acendem gradualmente.

Renan Almeida, junho de 2012.

sábado, 12 de maio de 2012

Relógio de bolso

Passos e marca-passos
Devo admitir minha vergonha

Os medos dos filhos
Misturam-se à consciência dos pais

Vejo isso e nada mais

Quero ver, comprovar
Sentir o cheiro, tocar

Quero sentir o real
Cair na real

Gelo seco,
Meus lábios estão pregados nos dentes
Sinto cheiros, suo horrores

Minha língua adormece
Ao amanhecer do dia
Bafo de gazela,
Martelo, dente de ouro

Vejo chamas no interior de um prédio
Fogo
Fofo
Fogo, queima, queima

As artérias do meu coração sobrevoam a tinta seca da casa abandonada
De paredes descascadas
E fumaça preta

E lá está ela
E cá estás tu
A procurar sentido

Vendido, minha vida
Quero um cadillac com portas pretas
Depois, avise-me com exclamação

Vi as galáxias, galáxias das galáxias
Descobri que somos um
Grande e gordo, fosco
Poeira das estrelas.

Renan Almeida, maio de 2012.

sábado, 18 de junho de 2011

O demônio da impulsividade

As folhas de papel riscadas são levadas pelo vento
E nelas, escritos todos os medos e tormentos,
O traço de uma dor pungente
É percebido diante dos rabiscos de ódio.
O homem quis livrar-se de tudo o que o torturara,
Suas idéias funestas,
Por ele mesmo ignoradas.
Mas o ardor do desejo de sangue
Fez o homem conspirar, entrar em conflito consigo,
Tentar, de alguma forma, procurar abrigo
Dentro do pouco de humanidade que restava em sua alma.
Era como se estivesse dividido em duas partes:
Uma ansiava morte, outra se mantinha paciente.
Buscava maneiras infinitas de se manter consciente,
Pensava em seus inimigos e a idéia parecia-lhe eloqüente,
E queria acabar de vez com tudo e todos que o fizeram mal.
Por um instante, sem estar mais relutante,
Deixou o impulso percorrer-lhe o corpo
E foi atrás de seu escopo.
Retalhando sua vítima com ódio incontrolável,
O homem fora impiedoso, cruel, abominável,
E terminara o serviço com um ar inexorável.

Tudo estava acabado e logo o ódio passava,
Sem mais expressar nenhum tipo de cólera,
O homem pôs-se a chorar,
Imaginando a que ponto pôde chegar,
Rasgando o rosto com lágrimas de desespero.

Do corpo deveria se livrar,
Com a culpa haveria de se conformar
E não havia mais tempo a perder.
Com tamanha dificuldade, arremessou o corpo ao rio,
Prendendo um peso para que pudesse afundar.
Aquele dia o havia mudado,
E ele sabia que teria de viver com fardo de um homem ter matado.

Renan Almeida, abril de 2011.

Poema sem título

Vejo a conveniente solução para meus problemas,
Pois quem verá que dilemas
Tenho enfrentado até aqui onde estou?
É tão simples e nefasto,
Que não me devo preocupar com acontecimentos a posteriori,
Nem me prender a pensamentos de dor.
Só peço a todos que me poupem o velório,
Levem meu corpo ao crematório
E esqueçam rituais tolos de galardão.

Talvez seja mais conveniente
Atirar o corpo ao rio corrente,
Tal como fazem os indianos.
Se mesmo assim for trabalho exagerado,
Deixem a carcaça ao chão jogado,
Até que apodreça cumprindo o ciclo.
Agora à beira do precipício,
Sozinho num mundo fictício,
A morte vem para buscar-me,
Cumprindo, de vez, seu ofício.

Adaímel Naren.

sábado, 21 de maio de 2011

Ultraviolência

Derrubado com um tolchock,
Krovvy se espalhava pelo chão,
Atacado com a ultraviolência de molochs,
O pobre veck agonizava sua dor em solidão.
Malditos bratchnys, fugiram skorry,
Sem dar chance de reação ao catódio,
Deram vazão a seu ódio,
Por puro preconceito e intolerância
E acharam tudo horrorshow.

Ofenderam-no por kaffir,
Bateram nele até cair,
Defendendo algo já provado inepto.

O veck agredido, representante da minoria,
Alcunhado de inúmeros nomes sujos,
Agora, à beira da morte,
Suplica por Bog, o bom e velho Bog.

Na noite escura e sombria,
Uma baboochka trafega indiferente, sem prestar socorro ao desgraçado,
A toda essa violência o povo já deve estar acostumado,
Tudo virou nátrio.

Antônio Operário.

sábado, 7 de maio de 2011

Amor em quatro estrofes

Como posso te contar
Em versos irregulares e rimas pobres
O que tenho - há tanto tempo guardado
Pra te dizer?


Como posso te ver
Sem parecer um completo idiota,
Sem parar de suar as costas
E sem nada disso entender?


Eu, desajeitado, um pobre desgraçado
Que nem sequer deu-se ao luxo de tolher
Essa sensação diferente,
Que mexe com a gente
E que já se tornou clichê.


Medíocre condição
De dependência, uma infecção
Que há de um dia a todos aparecer,
Mas se sou correspondido
E a ti sou mais que um amigo,
Então eu só penso em você.

André Laminae.