terça-feira, 26 de junho de 2012

Fim de tarde

O sol se põe no fim de tarde melancólico,
O céu impressiona a todos com um espetáculo de cores;
Tons alaranjados, mistos de azul e amarelo,
Doces nuvens em formatos diversos.

Na Praça do Relógio,
Pombos aglomeram-se em busca de uma migalha
E o badalo das seis avisa que é hora de se recolher.
Porém, o sol parece recusar-se a ir embora;
Como se quisesse presentear-nos com um último e gracioso minuto;
Logo se tornam desertos de concreto as ruas movimentadas de outrora
E a noite cai sobre os postes que se acendem gradualmente.

Renan Almeida, junho de 2012.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Historinha da estação de trem

            De tarde, na Avenida S. José do Rego, fazia um calor infernal. Na plataforma, aguardando o trem das quatro horas, trabalhadores suados amontoavam-se num festival de odores. Os que possuíam ainda alguns trocados gastavam com o pastel de palmito frito a óleo de dois dias. Os restos de comida serviam de alimento aos camundongos, que ora circulavam livremente, ora optavam por se esconder.
Seu Joaquim era o dono da pastelaria, a única por perto. O dia estava sendo lucrativo para ele, uma fila quilométrica e desordenada, onde não se sabia distinguir começo e fim, formava-se em frente ao estabelecimento.

- Ui!, gemia de quando em quando uma senhora ao ter um dos pés pisado e, logo em seguida, disparava mais xingamentos por minuto do que uma metralhadora dispara tiros.

Às 16:15, já se ouviam reclamações. O trem havia atrasado. Um vendedor de amendoim, aproveitando-se da situação, enfiou-se no meio da multidão e começou a berrar:

- Amendoim! Ó o amendoim! É só cinquenta centavo!

         E as vendas alavancaram. Os famintos sem dinheiro o suficiente para o pastel ou sem disposição para encarar a fila, logo foram ao encontro da voz que anunciava o aperitivo barato. Transcorrido o tempo exato de cinco minutos, o trem chegava à estação, com os assentos já ocupados. A multidão precipitou-se para dentro do veículo, onde todos ficaram espremidos.

         Entretanto, nem todo mundo conseguiu entrar, pois a lotação máxima já havia sido ultrapassada. Muitos dos que ficaram para trás estavam na fila do pastel. Não havia remédio a não ser esperar o próximo trem. Aos que conseguiram embarcar apenas restava aproveitar a cômoda viagem até a estação em que desceriam.

         No interior do trem, havia uma luta pela sobrevivência. Como o ar era escasso, respirar tornava-se uma tarefa difícil. Quem não estivesse perto das janelas teria de se contentar com o cheiro de suor, que descia pelo rosto colando a fronte dos cabelos na testa.

         A viagem não era longa, mas num ambiente como aquele parecia uma eternidade. A beleza das paisagens pelas quais o comboio passava pouco era notada pelos passageiros, estressados com a viagem e preocupados com o orçamento familiar. Comeriam arroz com feijão naquele mês? Um dos dois faltaria? Perguntas e mais perguntas. Insegurança e desassossego. Muitas velhas rezavam todos os dias, manhã, tarde e noite, e nada se alterava. Teria deus esquecido daquelas pessoas?, perguntavam-se sem resposta. Porém, onde há sofrimento, há fé, onde há fé, há esperança e onde há esperança desistir não é uma opção. E assim caminha essa gente, de olhos vendados, sem saber se a estrada que trilham é segura, apenas à espera de uma melhoria no futuro. Futuro esse que talvez não altere em nada a dura realidade em que vivem. Mas a esperança prevalece.


Renan Almeida, maio de 2012.

sábado, 12 de maio de 2012

Relógio de bolso

Passos e marca-passos
Devo admitir minha vergonha

Os medos dos filhos
Misturam-se à consciência dos pais

Vejo isso e nada mais

Quero ver, comprovar
Sentir o cheiro, tocar

Quero sentir o real
Cair na real

Gelo seco,
Meus lábios estão pregados nos dentes
Sinto cheiros, suo horrores

Minha língua adormece
Ao amanhecer do dia
Bafo de gazela,
Martelo, dente de ouro

Vejo chamas no interior de um prédio
Fogo
Fofo
Fogo, queima, queima

As artérias do meu coração sobrevoam a tinta seca da casa abandonada
De paredes descascadas
E fumaça preta

E lá está ela
E cá estás tu
A procurar sentido

Vendido, minha vida
Quero um cadillac com portas pretas
Depois, avise-me com exclamação

Vi as galáxias, galáxias das galáxias
Descobri que somos um
Grande e gordo, fosco
Poeira das estrelas.

Renan Almeida, maio de 2012.

sábado, 18 de junho de 2011

O demônio da impulsividade

As folhas de papel riscadas são levadas pelo vento
E nelas, escritos todos os medos e tormentos,
O traço de uma dor pungente
É percebido diante dos rabiscos de ódio.
O homem quis livrar-se de tudo o que o torturara,
Suas idéias funestas,
Por ele mesmo ignoradas.
Mas o ardor do desejo de sangue
Fez o homem conspirar, entrar em conflito consigo,
Tentar, de alguma forma, procurar abrigo
Dentro do pouco de humanidade que restava em sua alma.
Era como se estivesse dividido em duas partes:
Uma ansiava morte, outra se mantinha paciente.
Buscava maneiras infinitas de se manter consciente,
Pensava em seus inimigos e a idéia parecia-lhe eloqüente,
E queria acabar de vez com tudo e todos que o fizeram mal.
Por um instante, sem estar mais relutante,
Deixou o impulso percorrer-lhe o corpo
E foi atrás de seu escopo.
Retalhando sua vítima com ódio incontrolável,
O homem fora impiedoso, cruel, abominável,
E terminara o serviço com um ar inexorável.

Tudo estava acabado e logo o ódio passava,
Sem mais expressar nenhum tipo de cólera,
O homem pôs-se a chorar,
Imaginando a que ponto pôde chegar,
Rasgando o rosto com lágrimas de desespero.

Do corpo deveria se livrar,
Com a culpa haveria de se conformar
E não havia mais tempo a perder.
Com tamanha dificuldade, arremessou o corpo ao rio,
Prendendo um peso para que pudesse afundar.
Aquele dia o havia mudado,
E ele sabia que teria de viver com fardo de um homem ter matado.

Renan Almeida, abril de 2011.

Poema sem título

Vejo a conveniente solução para meus problemas,
Pois quem verá que dilemas
Tenho enfrentado até aqui onde estou?
É tão simples e nefasto,
Que não me devo preocupar com acontecimentos a posteriori,
Nem me prender a pensamentos de dor.
Só peço a todos que me poupem o velório,
Levem meu corpo ao crematório
E esqueçam rituais tolos de galardão.

Talvez seja mais conveniente
Atirar o corpo ao rio corrente,
Tal como fazem os indianos.
Se mesmo assim for trabalho exagerado,
Deixem a carcaça ao chão jogado,
Até que apodreça cumprindo o ciclo.
Agora à beira do precipício,
Sozinho num mundo fictício,
A morte vem para buscar-me,
Cumprindo, de vez, seu ofício.

Adaímel Naren.

sábado, 21 de maio de 2011

Ultraviolência

Derrubado com um tolchock,
Krovvy se espalhava pelo chão,
Atacado com a ultraviolência de molochs,
O pobre veck agonizava sua dor em solidão.
Malditos bratchnys, fugiram skorry,
Sem dar chance de reação ao catódio,
Deram vazão a seu ódio,
Por puro preconceito e intolerância
E acharam tudo horrorshow.

Ofenderam-no por kaffir,
Bateram nele até cair,
Defendendo algo já provado inepto.

O veck agredido, representante da minoria,
Alcunhado de inúmeros nomes sujos,
Agora, à beira da morte,
Suplica por Bog, o bom e velho Bog.

Na noite escura e sombria,
Uma baboochka trafega indiferente, sem prestar socorro ao desgraçado,
A toda essa violência o povo já deve estar acostumado,
Tudo virou nátrio.

Antônio Operário.

sábado, 7 de maio de 2011

Amor em quatro estrofes

Como posso te contar
Em versos irregulares e rimas pobres
O que tenho - há tanto tempo guardado
Pra te dizer?


Como posso te ver
Sem parecer um completo idiota,
Sem parar de suar as costas
E sem nada disso entender?


Eu, desajeitado, um pobre desgraçado
Que nem sequer deu-se ao luxo de tolher
Essa sensação diferente,
Que mexe com a gente
E que já se tornou clichê.


Medíocre condição
De dependência, uma infecção
Que há de um dia a todos aparecer,
Mas se sou correspondido
E a ti sou mais que um amigo,
Então eu só penso em você.

André Laminae.